A SOMBRA DO CORVO
- Observa – disse-me a ave negra trepada sobre o umbral da porta do meu quarto –
vês que o silêncio é interrompido por minha voz. Ouves-me agora, mas quando me calo, podes tu ouvir a voz do silêncio?
- Pode-se ouvir o que não é dito? – respondi eu incrédulo com a realidade da cena.
-Não o que não é dito, mas o que poderia ser dito, ou o que poderia ser ouvido.
- Vens tu a esta hora da madrugada fria falar-me do silêncio das palavras, ou queres lançar enigmas sobre o vazio das idéias?
- Observa! Presta atenção no que acontece aqui. Quando me calo, o ar não fica mais parado. Atenta a isso!
Mas antes de me ouvir, tudo estava paralisado. Nenhum movimento de idéias pairava no ar ocioso deste aposento quieto, mas
quando te interpelei, quebrei a solidão deste recinto, e tu, com surpresa, atentaste para mim. Depois calei-me. Todavia, o ar deste
ambiente continuou a ecoar as minhas palavras sobre a tua cabeça, com todas as conjecturas que pularam da tua mente em virtude das
minhas palavras, e mesmo que eu me vá daqui e não mais retorne, neste recinto ficará eternamente o meu fantasma. A tua mente buscar-me-á todas as vezes na solidão da noite, quando repousares na tua cama, e como não mais me terás contigo, tu mesmo me criarás.
- Vai-te daqui, ave do mal. Filósofo ou demônio! Vai-te daqui e leva contigo a tua sombra funesta até as profundezas do inferno, de onde
deves ter fugido, e lá te oclusas com o teu senhor, e deixa em paz a minha alma.
E a ave negra erguendo as suas imensas asas, lançou-me um olhar ferrenho e demoníaco. E antes de se lançar nas profundezas da escuridão
da noite, através da janela aberta, disse-me:
- Sim, é certo que eu me vá. Todavia, a minha sombra ficará. Ela estará sempre aqui, neste umbral a observar-te. E a tua própria consciência
vestirá as minhas penas negras, e delas e das minhas palavras, a tua alma não mais se libertará. Nunca mais.
vês que o silêncio é interrompido por minha voz. Ouves-me agora, mas quando me calo, podes tu ouvir a voz do silêncio?
- Pode-se ouvir o que não é dito? – respondi eu incrédulo com a realidade da cena.
-Não o que não é dito, mas o que poderia ser dito, ou o que poderia ser ouvido.
- Vens tu a esta hora da madrugada fria falar-me do silêncio das palavras, ou queres lançar enigmas sobre o vazio das idéias?
- Observa! Presta atenção no que acontece aqui. Quando me calo, o ar não fica mais parado. Atenta a isso!
Mas antes de me ouvir, tudo estava paralisado. Nenhum movimento de idéias pairava no ar ocioso deste aposento quieto, mas
quando te interpelei, quebrei a solidão deste recinto, e tu, com surpresa, atentaste para mim. Depois calei-me. Todavia, o ar deste
ambiente continuou a ecoar as minhas palavras sobre a tua cabeça, com todas as conjecturas que pularam da tua mente em virtude das
minhas palavras, e mesmo que eu me vá daqui e não mais retorne, neste recinto ficará eternamente o meu fantasma. A tua mente buscar-me-á todas as vezes na solidão da noite, quando repousares na tua cama, e como não mais me terás contigo, tu mesmo me criarás.
- Vai-te daqui, ave do mal. Filósofo ou demônio! Vai-te daqui e leva contigo a tua sombra funesta até as profundezas do inferno, de onde
deves ter fugido, e lá te oclusas com o teu senhor, e deixa em paz a minha alma.
E a ave negra erguendo as suas imensas asas, lançou-me um olhar ferrenho e demoníaco. E antes de se lançar nas profundezas da escuridão
da noite, através da janela aberta, disse-me:
- Sim, é certo que eu me vá. Todavia, a minha sombra ficará. Ela estará sempre aqui, neste umbral a observar-te. E a tua própria consciência
vestirá as minhas penas negras, e delas e das minhas palavras, a tua alma não mais se libertará. Nunca mais.